sábado, 31 de agosto de 2019

Carta para a minha mãe

Minha psicóloga tem sugerido a escrita toda vez que algo impactante me ocorre. Diz ela que os sentimentos são como cálculos de matemática. Um cálculo simples organizamos e resolvemos de cabeça, já um cálculo complexo precisamos colocar no papel. Da mesma forma com os sentimentos. Por isso, estou aqui escrevendo novamente, pois quero ter um histórico disso.

Sábado passado briguei com minha mãe, falei coisas e ouvi coisas que não gostei e tenho medo de procurá-la, pois sei que ela não é do tipo de baixar a guarda e tenho medo de reagir mal caso ela seja irredutível e piorar tudo. Mas a psicóloga sugeriu escrever uma carta e segue ela abaixo:

"Mãe,

Estive conversando com minha psicóloga sexta e falei coisas pra ela que ela sugeriu falar pra você também. Porém, pessoalmente tenho receio de não conseguir concluir e por isso escrevo essa carta.
Sempre que brigamos eu fico toda errada. Não existe ninguém no planeta que me deixe toda errada ao estar brigada quanto você e sabe porque? Porque tu és meu mundo! Nada me deixa mais mal do que estar de mal com o meu mundo! Sempre fui a tua filha querida, educada e não tenho paz se não estivermos de bem ou se você estiver chateada comigo. 
Tenho algumas mágoas de minha infância que busco superar e entender pra poder seguir em frente e ser uma pessoa melhor, mas tenho consciência - agora - que por mais que foque em minhas feridas e lute por elas, tu tens mais feridas e provavelmente maiores que a minha as quais não estava dando o devido respeito e consequentemente não estava me colocando no seu lugar e te entendendo. Só enxergava minha dor e esqueci ou não quis pensar que talvez tu estivesse doendo também e ao cogitar a possibilidade de estar sofrendo também, me senti duplamente triste. 

Ao sair da nossa discussão, vim pra casa chorando como uma criança. Soluçava e estava descontrolada. Me sentia muito mal, muito triste e frustrada. E em nenhum momento passou pela minha cabeça que talvez tu estivesse mal também. Entendo que agimos de forma semelhante quando somos magoadas. Alguns choram, mas eu reajo de forma hostil. Me defendo agredindo e acabo magoando também. Estava muito sensível naquele sábado e estava me segurando mesmo vendo você novamente e insistentemente falar mal do meu pai ou falar mal da forma como a minha irmã age perante ele, mas ao tocar no assunto que é meu ponto fraco - minha filha - eu perdi o controle. 

Eu tenho ciência das minhas falhas como mãe, de verdade e sofro com isso e muito também. Meu objetivo ao ir em uma psicóloga era de melhorar como pessoa para ser uma referência melhor pra minha filha. Você tocou numa ferida sangrando e falou algo que me machucou demais. Mas mãe, eu tenho consciência dos meu erros e estou buscando a mudança, estou tentando! Não me julgue sempre. Peço que me ajude a ter mais calma, por favor. 

Sei que muitas vezes reforçamos as suas possíveis falhas como mãe, mas eu sei que tens muitas feridas que foram feitas ao longo da sua vida. Eu respeito elas e quero te ver feliz. 

Além do mais, mesmo falando pouco muitas vezes, és uma ótima mãe e vó! 
Lembro da minha infância... lembro dos Natais sempre cheio de magia, sempre tinha um presentinho mesmo nas piores fases, lembro de sempre falar de mim para os outros com orgulho, lembro de nos defender! 

Na verdade... pensando bem, fico feliz se conseguir ser boa mãe como fostes. Ensinando a ser forte, a nunca desistir dos sonhos e lutar porque meu sucesso depende só e unicamente de mim. 

Mãe, me desculpa pelas coisas ruins que disse a você. Estou procurando melhorar como pessoa, peço que tenha paciência e me ajude. 

Te amo!

Sua filha."

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