Dias atrás me deparei com um trecho pequeno do poema "Ausência" do Vinícius de Moraes e recordei que a Daniele sempre amou poesia... Eu relembrei que outrora eu já fui doce, romântica e acreditava no amor mais puro, visceral e sobrehumano. Um amor que transcende vidas, dimensões e universos.
Eu não tenho boa memória, mas estranhamente alguns poemas ficaram entocados no meu cérebro...
Curiosamente quando li o trecho:
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz."
Logo veio a mente:
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto."
E coincidentemente era o que meu coração estava dizendo a mim com lágrimas nos olhos...
Algumas dores emocionais geram dores físicas, pois quando falei mentalmente a frase acima senti como se tivessem apertado meu peito com as mãos.
É como se eu tivesse entendido à força - apesar de tentar me convencer do contrário - que eu deveria "colocar meu rabo entre as pernas e baixar minhas orelhas" e aceitar que as coisas serão como devem ser e não há absolutamente nada que eu possa fazer para mudar isso. Essa sensação de impotência, de perda do controle do que estou vivendo me gera uma ansiedade absurda e eu sei o motivo disso.
Quando se cresce em um lar desestruturado, um lar que não ofereceu segurança e amparo, o adulto necessita ter o controle da situação para não se sentir nunca mais desamparado, inseguro, ou seja, à mercê da maré.
Sempre amei o amor, mesmo sem saber o que era amar... e quando achei que havia finalmente me deparado com o amor, percebi que não conseguia amá-lo da mesma forma como antes... ele era diferente na minha imaginação...
Conforme o tempo foi passando, conforme a dor foi me calejando, fui achando que o amor era sinônimo de gente fraca, ingênua, quiçá burra e fui me colocando no sentido oposto dele.
O amor é complicado demais, é difícil, dói, inflama e não cura... O tempo acaba amenizando aquela dor e acabamos confusos sem mais saber se o que doía era o amor ou qualquer outro sentimento que pudesse nos gerar confusão como insegurança, ego ferido, desprezo, entre tantos...
Mas hoje, percebi que eu continuo acreeditando que o amor não dói... Que o que causa dor é qualquer coisa, menos o amor... Qualquer coisa que deixar dúvida, que deixar dor não pode ser amor...
Relembrei meu amor pela poesia que manifesta a minha adoração pelo que é puro, inocente, ingênuo e mágico!
Fiquem com Vinícius de Moraes:
Soneto de Fidelidade:
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
E em louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Estoril, outubro de 1939
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