quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Resgates

Dias atrás me deparei com um trecho pequeno do poema "Ausência" do Vinícius de Moraes e recordei que a Daniele sempre amou poesia... Eu relembrei que outrora eu já fui doce, romântica e acreditava no amor mais puro, visceral e sobrehumano. Um amor que transcende vidas, dimensões e universos.

Eu não tenho boa memória, mas estranhamente alguns poemas ficaram entocados no meu cérebro...

Curiosamente quando li o trecho:

"No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz."

Logo veio a mente:

"Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto."

E coincidentemente era o que meu coração estava dizendo a mim com lágrimas nos olhos...

Algumas dores emocionais geram dores físicas, pois quando falei mentalmente a frase acima senti como se tivessem apertado meu peito com as mãos.

É como se eu tivesse entendido à força - apesar de tentar me convencer do contrário - que eu deveria "colocar meu rabo entre as pernas e baixar minhas orelhas" e aceitar que as coisas serão como devem ser e não há absolutamente nada que eu possa fazer para mudar isso. Essa sensação de impotência, de perda do controle do que estou vivendo me gera uma ansiedade absurda e eu sei o motivo disso.

Quando se cresce em um lar desestruturado, um lar que não ofereceu segurança e amparo, o adulto necessita ter o controle da situação para não se sentir nunca mais desamparado, inseguro, ou seja, à mercê da maré. 

Sempre amei o amor, mesmo sem saber o que era amar... e quando achei que havia finalmente me deparado com o amor, percebi que não conseguia amá-lo da mesma forma como antes... ele era diferente na minha imaginação...

Conforme o tempo foi passando, conforme a dor foi me calejando, fui achando que o amor era sinônimo de gente fraca, ingênua, quiçá burra e fui me colocando no sentido oposto dele.

O amor é complicado demais, é difícil, dói, inflama e não cura... O tempo acaba amenizando aquela dor e acabamos confusos sem mais saber se o que doía era o amor ou qualquer outro sentimento que pudesse nos gerar confusão como insegurança, ego ferido, desprezo, entre tantos...

Mas hoje, percebi que eu continuo acreeditando que o amor não dói... Que o que causa dor é qualquer coisa, menos o amor... Qualquer coisa que deixar dúvida, que deixar dor não pode ser amor... 

Relembrei meu amor pela poesia que manifesta a minha adoração pelo que é puro, inocente, ingênuo e mágico!

Fiquem com Vinícius de Moraes: 

Soneto de Fidelidade:

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Estoril, outubro de 1939

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